Ontem me perguntaram: “Professor o Brasil está vivenciando inflação por escassez?” E, rapidamente, respondi: É exatamente isso o que parece e trata-se de algo inédito, pelo menos no contexto do Plano Real. A economia brasileira demonstrar vivenciar o que chamamos de ‘inflação por escassez’, ou seja, a pressão sobre os preços de muitos dos bens de consumo provocada pela escassez de produtos disponíveis para a compra. Esta situação é decorrente da escassez de itens para a produção dos bens, embora, existam outros fatores geradores de forte influência sobre os preços, especialmente a desastrosa desvalorização do Real frente ao Dólar – situação que reduz o poder de compra das pessoas (aliás, financeiramente empobrece a população).

Sobre a desvalorização do Real, ao que tudo indica, a moeda brasileira está fora de preço, ou seja, mais barata do que deveria, e essa situação ajuda a agravar ainda mais a ocorrência de escassez de itens para a indústria. Isso acontece, especialmente, porque os produtos, insumos e matérias-primas vendidos pelo Brasil ficam baratos para o restante do mundo, enquanto ficam caros para os brasileiros, logo os produtos encarecem para a população e para as organizações. Adquirir itens importados e até mesmo itens nacionais, em momento de desvalorização da moeda nacional, leva a indústria local preferir exportar a vender localmente. Os itens nacionais em sua maioria possuem, mesmo que indiretamente, alguma relação com o câmbio, portanto, dólar mais caro, em geral, significa vida mais cara para as pessoas.

É considerado comum de se observar na economia a elevação de preços baseado no excesso de demanda, ou seja, em momentos em que há muito mais pessoas querendo comprar do que há empresas capazes de produzir, vender e entregar os produtos, o que provoca pressão inflacionária sobre os preços. Entretanto, o cenário atual é diferente, as empresas querem produzir e possuem capacidade instalada para isso, porém, elas não podem aumentar a produção para os níveis pré-pandemia porque não conseguem comprar e receber rapidamente itens obrigatórios para a composição dos produtos que fazem o que provoca aumento do tempo necessário para cumprir seus contratos de fornecimento, por exemplo.

Nesse sentido, o caso da indústria automobilística é emblemático. Muitas montadoras já trabalham com prazos superiores a 120 dias para a entrega de alguns dos veículos encomendados hoje, e mesmo produzindo abaixo da sua capacidade instalada não conseguem encurtar os prazos de entrega. O problema deste ramo industrial é a escassez de semicondutores (chips), necessários em quantidade significativa por automóvel produzido, especialmente, os tidos como flagships ‘topo de linha’. Ou seja, o problema decorrente da desvalorização do Real recai sobre os preços dos novos veículos produzidos que possuem muitos itens importados e/ou cotados em dólar, com isso elevando os valores dos automóveis cobrados dos compradores. Com a falta de itens para a produção dos veículos, a pressão sobre os preços torna-se ainda maior, e isso sem considerar que outros itens podem estar com prazos de entrega aumentados, como metal, pneus, borracha etc., dada sua escassez ou menor oferta, o que também afeta as montadoras e outros diversos setores industriais.

A escassez não ocorre apenas no Brasil, mas realmente essa situação afeta uma população que, de 2020 para 2021 viu seu poder de comprar cair em aproximadamente 40%. Para os brasileiros, comprar alimentos, computadores, carros e muitos outros itens ficou muito mais caro, afetando a todos, mas especialmente àqueles cuja sensibilidade a preço é maior. Portanto, a inflação por escassez e a moeda desvalorizada é um tipo de união de duas catástrofes que ninguém merece, mas infelizmente, com as quais temos que lidar.

Referências

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GIAMBIAGI, Fábio; et al. Economia brasileira contemporânea. 3 ed. São Paulo: GEN Atlas, 2016.

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KRUGMAN, Paul. Economia Internacional. 10 ed. São Paulo: Pearson, 2015.

_______. Introdução a economia. 3 ed. São Paulo: LTC, 2021.

MANKIW, Gregory. Princípios da microeconomia. 6 ed. São Paulo: Cengage, 2013.

SILVA, Cesar Roberto Leita da; CARVALHO, Maria Auxiliadora de. Economia Internacional. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2017.

SMITH, Adm. A riqueza das nações. 3 ed. São Paulo: Nova Fronteira, 2017.

Prof. Dr. Marcelo Zambon

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